de uma cor plumbéa,
colho raios de sol.
já estás no meu pensamento
leve como uma nuvem
que singra o firmamento.
Apenas amadurece
a nobre colheita do outono
que se apresenta.
A imagem acima está sendo compartilhada nas redes sociais e retrata bem no que se transformou o Carnaval da Bahia: a festa da segregação. Do lado de dentro do bloco, os brancos. Do lado de fora: os negros.
Em Salvador você tem duas opções para brincar o Carnaval: ou se gasta uma fortuna para bancar a privatização da folia, ou se vive uma popcorn experience, sendo esmagado do lado de fora da avenida, onde a sensação é a mesma de se sentir um dejeto humano, apanhando da polícia e dos seguranças do cordão de isolamento.
O Carnaval de Salvador se apoia financeiramente em quatro pilares: a venda de abadás (que financia os trios), a venda de camarotes, a transmissão pela TV e o dinheiro público. Este último financia boa parte da festa, já que pagar a segurança e a limpeza não é brincadeira. Claro que a cidade arrecada com impostos, mas nem tudo é uma maravilha.
Na prática é feito um acordo com a classe média: esta paga os trios e em troca o Governo privatiza a rua para os ricos. No caso dos camarotes algo mais sinistro acontece, já que não há licitação para a cessão dos espaços. Tudo é arranjado com os “donos do carnaval”.
Alguns dias atrás o cantor do Chiclete com Banana, Bell Marques, mostrou o que pensam os artistas que fazem parte deste mercado: “A corda sempre existiu. Na minha opinião, em vez de separar, ela acaba unindo. Porque grande parte do povão acaba vendo de graça algo pago por uma parcela.”
Depois da declaração, uma imagem com duplo sentido foi colocada na internet com a frase de Bell, mostrando bem que muita gente já não concorda com esse tipo de pensamento. Semana passada um debate no Terra Magazine com artistas e um professor da UFBA mostrou bem a divisão.
De um lado Daniela Mercury e Durval Lelys e do outro Luiz Caldas e um professor da UFBA. Em certo momento, em off, Daniela teria dito que o melhor seria ir embora se acabassem com os blocos, no que Caldas retrucou: “Duvido que você largue o osso”.
Uma participação no trio elétrico chega a render líquido às bandas algo como 1 milhão de reais, por apenas uma apresentação de algumas horas. Isso é quase o que o U2 recebe por um show.
Artistas de quinto time do mercado musical como Daniela Mercury, recebem no máximo R$ 30 mil de cachê por uma apresentação, que anda cada vez mais rara. A apresentação do Carnaval sustenta sua falta de repertório que o mercado trata de precificar lá embaixo no resto do ano. Se ela precisasse ser bancada como nossos artistas, por patrocínios em trios, não receberia mais do que em outras épocas do ano.
Isto é o que chamamos de falha de mercado. O privado (no caso os artistas e donos de bloco) se apropriam da marca do Carnaval de Salvador, construída com dinheiro público ao longo de décadas, e ganham acima do que o próprio mercado precifica como justo.
Mas não são poucos os que começam a se rebelar contra este modelo de carnaval.
Carlinhos Brown, Moraes Moreira e Luiz Caldas já saem sem cordão de isolamento. O mesmo está acontecendo com o próprio Chiclete com Banana, que apresenta posição dúbia no assunto. Uma hora defende e na outra cria o motivo da discórdia.
Luiz Caldas ainda criou uma música sobre o tema, que retrata bem o que passa no Carnaval (vídeo acima):
Chuva de grana, carnaval com capilé
A festa acabou sendo o que é
Estica e puxa na fila pra desfilar
E a pipoca já não brinca sem gastar
No apartheid da alegria
O trio que passa traz a massa
E no camarote, segurança e muito mimo de graça
Dentro do bloco a beijação não traz pirraça
Do outro lado o Pitt Bull só quer brocar
Não se volta no tempo sem respeito à praça
Careta agora é só pra se enfezar
Agora é o abadá, mortalha nunca mais
Pois quando tudo é free sempre se quer mais
E atrás de espaço fica o nobre cidadão
Maluco pra tirar o pé do chão
Ei você aí do camarote, toma uma aí por mim
Porque aqui embaixo é bico seco, agora é assim (bis)
Ei você que tá nessa pipoca, pula um pouco aí por mim
Porque dessa mordomia eu só vou sair no fim
Em Recife tivemos uma tentativa de privatização semelhante, quando Cadoca dominava a organização do turismo da cidade. Na cabeça dele Recife deveria ser igual Salvador. Felizmente a história política foi implacável com esta figura, lhe relegando o máximo que a escumalha consegue: a aquisição de um mandato via poder econômico. Agora é apenas um cadáver político que respira às custas de alguém.
Algo que iremos investigar é como está funcionando os esquemas do Galo da Madrugada. O desfile está se tornando um cordão de isolamento de madeiras de camarote. Ao invés do cordão de isolamento, a opção foi pela “camarotização”.
De dois anos para cá, algo tem acontecido para reforçar a privatização do nosso carnaval. E isso precisa ser extirpado logo no início.
Camarote do Galo: semelhanças com Salvador?
Antes os camarotes eram apenas os edifícios ao longo do trajeto. Desde os prédios da Avenida Guararapes até os postos de gasolina da Rua da Concórdia. Mas agora estabeleceram-se nas ruas, em algo ainda nebuloso.
Ninguém explica como empresas privadas conseguem colocar os camarotes nas ruas. Até mesmo a Prefeitura e o Governo do Estado resolveram se estabelecer por ali para abrigar os políticos e seus asseclas. Tirando o camarote das TVs, nada justifica a subtração do espaço público.
Isso tem se acentuado na atual gestão da Prefeitura. Sendo justo o ex-prefeito JPLS sempre combateu isso, inclusive chegando a proibir o cordão de isolamento. Para quem não se lembra, teve uma época em que a rua no Galo da Madrugada era tomada por caminhões. Até que um dia perceberam que não tinha mais povo na rua, só nos carros.
Claro que sempre existirão diferenças entre ricos e pobres, especialmente no Carnaval. Mas um dos principais motivos de orgulho para Pernambuco era que nestes dias todo mundo brincava da mesma forma. Isso não pode ser perdido de forma alguma. É a principal razão de ser do nosso carnaval. O sucesso do Recife Antigo, que este ano está muito organizado, é um claro retrato disso. E se associar a atual diretoria do Galo da Madrugada para importar o que de pior existe no Carnaval de Salvador é um crime à cultura pernambucana.
Apenas relembrando, esta segregação descarada foi o principal motivo pelo fim da folia em Boa Viagem. Colocaram cordão de isolamento, e ao final só sobrou dois tipos de gente na avenida: aqueles que não estavam dispostos a nada, a não ser pagar pelo abadá, e os que estavam dispostos a tudo, que ficavam do lado de fora apenas para arrumar confusão e roubar. O povo mesmo preferiu ir para o Recife Antigo.
Mas isso será assunto de outro post, depois que descobrirmos como está sendo bancada esta folia pública.
O carnaval se tornou um grande business, disso ninguém tem dúvida. Mas curioso é que no Rio de Janeiro, justamente o lugar em que o carnaval sempre foi sinônimo de negócio, a festa está voltando às suas reais origens e crescendo a participação nas ruas.
Por essas e outras é que o Rec-Beat tem se tornado um dos melhores lugares para o Carnaval de Pernambuco. Lá todo mundo é igual.
Uma coisa que não podemos esquecer nunca: a rua é do povo.
Todo cabra cachaceiro é corajoso
Toma porre depois fica bem afoito
Azarando um dragão e faz o coito
E nem nota quanto foi defeituoso
Noutro dia ele acorda preguiçoso
De ressaca reza pra Ave Maria
Não bebesse essa merda não faria
Em mocreia por aí meter a peia
Eu de porre não deitei com mulher feia
Eu apenas acordei no outro dia
Vai surtar quando acorda vê do lado
Deus do céu o que fiz com minha rola
Ela acorda satisfeita e quase tola
Com olhar bem meloso apaixonado
Você olha pro dragão bem assustado
Mas mandou bem demais na putaria
Ela pensa que não fica pra titia
Por você os pneus que tem arreia
Eu de porre não deitei com mulher feia
Eu apenas acordei no outro dia
Na refrega no escuro e na manguaça
Muito nego fudeu com cada troço
Requenguela demais eu que não posso
Me lembrar quando eu bebi cachaça
Mulé feia cabra macho chega e traça
Bonitinha até fresco comeria
Goza nela e até faz sodomia
Se ela tem um corpinho de sereia
Eu de porre não deitei com mulher feia
Eu apenas acordei no outro dia
- Jesus, há muitos de nós para alimentar!
- Traga-me a comida
- Maldita pirataria, vai acabar com a indústria do pão!
(Sugestão de Bruno Maestrini)
Mesmo os fãs mais fãs de Star Wars ficarão surpresos ao verem a galeria abaixo, ela conta com dezenas de fotos tiradas nos bastidores dos filmes e nunca foram reveladas ao público antes.
Enjoy!